Round Trips

Round Trips: Capítulo 10 – Japão & Você

Por: liketour | 14/12/2019

2019 é um ano de novidades para o liketour. Além, do já conhecido liketour cast, teremos novos conteúdos, com mais dicas e histórias de viagens para você.  Uma delas é a série de entrevistas no formato escrito, batizada de Round Trips*, onde conversamos com pessoas criadoras de sites, empresário e escritores de livros sobre turismo.

Roberto Maxwell é brasileiro do Rio de Janeiro. Radicado no Japão desde 2005, chegou ao país como bolsista do governo japonês e, pouco tempo depois, começou a trabalhar como jornalista. Trabalhou em revistas e jornais para brasileiros no Japão e como repórter freelance para diversos veículos de mídia do Brasil. É apresentador da Rádio Japão da NHK, a emissora pública japonesa. Também tem atuado como produtor local de programas para a TV brasileira.  Aos poucos, foi acumulando conhecimento sobre a cultura e as tradições japonesas e, desde o ano passado, administra a Tabiji, um grupo de guias brasileiros que atuam em cidades do Japão. Acompanha os turistas aos principais pontos turísticos do Japão criando roteiros personalizados e usa as redes sociais para promover informação de qualidade sobre o Japão e sobre viagem à Terra do Sol Nascente.

Roberto Maxwell

LT: Nos conte como iniciou sua carreira de guia e como começou a fazer esse trabalho no Japão? 

Roberto: Até o ano passado, a minha vida profissional no Japão se baseia majoritariamente no jornalismo. Acontece que desde o começo eu tive muita curiosidade de aprender o máximo que eu podia sobre o país e, por isso, já no primeiro ano eu saí numa viagem com o 18 Kippu [lê-se “juu rati quippu”], um tíquete especial que permite às pessoas viajar nos trens do grupo JR de todo o país de uma forma muito barata. O Japão é praticamente coberto de ponta a ponta por uma malha ferroviária gigantesca. E eu não estou falando do trem-bala. Estou falando dos trens urbanos. Com poucas exceções, é possível chegar em quase qualquer lugar do país de trem. E eu fui nessa aventura, partindo de Shizuoka, onde eu morava, no centro do país, até Kita-Kyushu, já no sudoeste. Foram 20 horas de viagem, somente usando trens urbanos, fazendo baldeações, sem sequer falar japonês direito. Nesse espírito, eu viajei muito o Japão nos 3 anos e meio em que fiquei como estudante e acumulei um conhecimento que, inicialmente, levei pro jornalismo, escrevendo matérias de turismo e usando meu blog e, depois, as redes sociais, para compartilhar esse conhecimento. Disso que começaram a chegar pedidos para fazer guia. Mas até o ano passado era ilegal fazer esse serviço sem ter licença. Uma mudança na lei permitiu que pessoas que não portassem licença pudessem trabalhar como guias e, com a enorme necessidade de mão de obra em português, vi que era um negócio em que eu tinha condições de entrar. Aliei meus estudos no mestrado em Sociologia, meu know how de viagem pelo Japão e meu conhecimento da língua japonesa para iniciar o Tabiji que tem dado muito certo.

LT: Em quais cidades japonesas você realiza seu trabalho de guia e quais as cidades e atrações mais procuradas pelos turistas brasileiros? 

Roberto: Eu estou baseado em Tóquio e é onde atuo mais. Porém, com a falta de guias em português, não é raro que eu viaje pelo Japão com os clientes e isso me fez estudar ainda mais para poder não somente atender em áreas turísticas de cidades como Kyoto e Osaka mas, também, para descobrir rotas, restaurantes, recantos que só os locais conhecem. Tem sido muito interessante porque me faz estar sempre viajando, lendo e aprendendo mais sobre os lugares.

Viajantes do Brasil ainda viajam de forma muito conservadora pelo Japão. Acho que isso tem a ver com o pouco conhecimento por parte das agências sobre o que oferecer a quem vem. Então, o pessoal quer visitar as localidades da chamada Rota de Ouro, que é uma linha quase reta na costa do Pacífico, que começa em Tóquio e termina em Hiroshima, passando por alguma localidade de onde se vê o Monte Fuji e segue para Kyoto e Osaka. Algumas pessoas um pouco mais “aventureiras” optam por ir a Kanazawa, na costa do Mar do Japão e, depois disso, descer para a costa do Pacífico passando por Shirakawago e Takayama. Outras aproveitam a ida da Hiroshima para visitar Naoshima, que é uma ilha conhecida pelas obras de arte ao ar livre. Mas o Japão é lindo demais e muito mais rico que a Rota de Ouro e meu papel hoje é tentar incentivar as pessoas a sair desse caminho que todo mundo faz.

Sobre atrações, a gente evita muito essa palavra, muito associada ao turismo de massa, e percebe que muitas das pessoas que viajam conosco também estão pensando assim. A gente sente que a busca é por experiências e, neste sentido, percebo que o pessoal quer vivenciar tradições do Japão, partindo do entendimento da religiosidade com as visitas a templos budistas e santuários xintoístas. Depois, muita gente quer experimentar rituais. Nós indicamos, por exemplo, um casal que faz em Tóquio um serviço do chá em casa, falando sobre alguns conceitos bem profundos do zen enquanto mostra a tradição do chá. Também vemos um interesse imenso pela gastronomia, já atendemos viajantes que quiseram imergir fundo, saindo do sushi – sashimi e indo bem além, conhecendo os restaurantes, dos mais estrelados até os mais simples. 

Exemplo japonês de confort food, o lámen tem se tornado cada vez mais popular entre turistas do Brasil

LT: Muitos brasileiros que viajam ao Japão se impressionam com o alto nível de disciplina e organização do país e do povo. Para você como foi esse “choque cultural” ao chegar aí e como foi a adaptação no novo país?

Eu sou do Rio de Janeiro, uma cidade onde disciplina e organização não são exatamente o forte. Mas, para mim, não foi exatamente um choque porque eu estava procurando um lugar que fosse o oposto do Rio, onde as regras fossem claras e respeitadas, na medida do possível. Então, a verdade é que eu senti um alívio vivendo no Japão. Sempre quis um lugar onde a vida pudesse ser mais simples e tranquila, onde as pessoas se respeitassem… Quando me perguntam a diferença entre o Rio e Tóquio, eu sempre lembro de quando eu morava num prédio no Flamengo e os meus vizinhos faziam festa no sábado de madrugada, sem nenhum respeito pelo outro, com som nas alturas. É uma coisa que dificilmente ocorreria em Tóquio. Esse respeito do limite do seu espaço, para mim, já vale ter trocado a vida no Rio pela vida no Japão.

Mas, claro, não é fácil se adaptar a uma vida completamente nova, num país totalmente diferente culturalmente falando. A questão da língua, por exemplo. O japonês é completamente diferente do português, não preciso nem dizer. O máximo de contato que alguém que não é descendente de japoneses tem com a língua é o” arigatô ô-ô, sayonara á-á” do É O Tchan. 

Eu me lembro que quando fui assinar o contrato da bolsa que recebi, no Consulado do Japão, eles tinham uma TV ligada numa luta de sumô. A TV japonesa usa muita legenda em tela e tinha um monte de coisa escrita. Eu olhava pra aquilo e pensava que eu precisava só de uma chave para entender. Só que, quando eu cheguei no Japão, e vi aquele monte de “monstrinhos” escritos em todos os lugares, começou a bater um certo desespero. Eu me vi totalmente analfabeto, aos 30 anos de idade. Acho que esse foi o maior impacto que eu sofri. Eu já era professor, com duas faculdades nas costas e, de repente, me vi, ali, analfabeto. Terrível!

Depois, quando as aulas começaram, outro fantasma começou a surgir que foi o da alimentação. Até me dei bem com os hashi, os palitinhos de comer, porque, por incrível que pareça, eu sabia usar aquilo já no Brasil, mesmo sem nunca ninguém ter me ensinado. Mas a gente come uma comida japonesa no Rio que é uma adaptação, feita para agradar ao nosso paladar. A maioria das pessoas que diz que ama sushi no Brasil jamais comeria sushi no Japão. O uso do shoyu é animal aí! As pessoas não passam shoyu no sushi, elas regam o sushi com o shoyu. O shoyu é o tempero do peixe não é para colocar no arroz. Pouca gente sabe disso. É espantoso para mim hoje mas, no começo, eu recebia a tigela de arroz no refeitório da universidade e também regava de shoyu. Colegas japoneses caíam na gargalhada. No Japão não se tempera o arroz, exceto no sushi. O arroz do sushi já vem temperado no preparo. Não precisa do shoyu. E o arroz que acompanha a comida não leva nada. É o gosto do arroz e pronto. Eu senti que estava adaptado ao Japão quando o gosto do arroz por si só passou a fazer sentido. Hoje eu como arroz sem necessidade de nenhum tempero e sei diferenciar um arroz bom dum arroz ruim. Isso, para mim, é total adaptação à vida no Japão.

LT: Quando você se apresenta como brasileiro, como é a reação dos japoneses? Qual a principal curiosidade que tem, já que são países muito distantes e diferentes. 

Roberto: No Japão, as pessoas não me leem como brasileiro. Elas têm uma imagem do brasileiro mais condizente com a realidade do país, de pessoas mais morenas ou negras. Essa imagem vem do futebol que é bem mais democrático do que, por exemplo, a TV no Brasil. Eu acho isso interessante e muito bom. Aqui no Japão, sempre faço um teste. Quando me perguntam de onde eu sou, eu respondo, em tom de brincadeira, perguntando de volta de onde a pessoa acha que eu vim. A maioria responde que acha que eu sou americano ou russo, por ser mais troncudo, ter barriga grande… As pessoas se espantam quando descobrem que eu sou brasileiro mas, depois, faziam uma festa. Isso, antigamente. O Japão tinha uma imagem nossa de gente festeira, futebol, música. Nos últimos tempos, essa imagem vem mudando. Recentemente, passaram a comentar da Amazônia, da instabilidade econômica, de gafes de políticos… Isso quando comentam alguma coisa. No Japão, as pessoas são muito reservadas na hora de fazer comentários ou críticas e esse silêncio diz que há algo de incômodo que a pessoa prefere não comentar. É uma pena.

LT: Uma das ideias dos seu trabalho como guia é atrair turistas brasileiros ao Japão. Como fazer com que os brasileiros viagem mais ao Japão, sendo um país muito longe e uma viagem muito cara?

Roberto: De um modo geral, a maioria das pessoas que eu encontro quando vou ao Brasil, mesmo fora das palestras que eu dou ou eventos de que eu participo, já quer vir ao Japão. Há alguns anos eu li uma pesquisa que tinha um resultado intrigante. A pesquisa perguntava às pessoas participantes qual era o melhor país do mundo na opinião delas. De todos os pesquisados, o único que não colocava em primeiro lugar o próprio país era o Brasil. Para o Brasil, o melhor país do mundo era o Japão. Isso pode ser analisado de diversas formas mas serve para ilustrar o fato de que as pessoas no Brasil têm uma admiração enorme pelo Japão. E muitas querem visitar o país. Mas aí vem a distância, o preço, como você citou.

Neste caso, o meu papel é, de algum modo, mostrar que o Japão não é tão caro quanto as pessoas no Brasil imaginam. A passagem já caiu muito nos últimos anos e a gente já vê que não somente pessoas de alto poder aquisitivo viajam do Brasil para cá, o que é muito bom. Então, eu vou tentando mostrar que existem opções para todos os bolsos. Quem tem menos grana pode viajar de ônibus, usar o passe que eu falei anteriormente, se hospedar em cápsulas ou albergues… O país nunca vai ser um destino baratinho mas é possível mochilar no Japão e, à medida do possível, tento mostrar isso nos trabalhos que eu faço.

LT: Muitos descendentes de japoneses voltam ao país dos seus antepassados para trabalhar em fábricas e no setor industrial. Como é a relação desses brasileiros com a comunidade japonesa?

Roberto: Quando cheguei aqui, acabei me envolvendo muito com a comunidade brasileira. Morava em Shizuoka que é uma província com uma população brasileira grande. No final das contas, a comunidade acabou sendo tema do meu mestrado e eu aprendi muito com as brasileiras e com os brasileiros que eu conheci aqui. Naquela época, existiam várias questões de adaptação. As pessoas colocavam as crianças em escolas brasileiras e elas cresciam sem falar japonês e sem condições de entrar na sociedade com alguma condição de disputar bons empregos com o povo local. O Japão, também, é muito reservado quanto à imigração. Se você pensar que, até o meados do século 19, o país era fechado para quem vinha de fora… Além disso, boa parte do pessoal imigrante pensava no Japão como um lugar provisório, mesmo que o tempo de voltar nunca chegasse. Nessas condições, adaptar-se à sociedade japonesa é uma tarefa complexa. Envolve muita coisa e a comunidade está em processo de negociação simbólica com o Japão, da aceitação de suas diferenças, por exemplo. Isso já está levando a uma ascensão social mesmo que lenta e mais participação e integração na sociedade como um todo. A crise de 2008 mudou muito a situação da comunidade brasileira. As crianças entraram em massa na escola pública, obrigando o sistema também a se repensar. Muita coisa está mudando para o Japão e, também, para o pessoal brasileiro que vive aqui. Isso tem sido bom.

Símbolo do Japão, o trem-bala Shinkansen é uma das opções de transporte rápidas entre Tóquio e outras regiões do país

LT: Você também realiza trabalhos de produção para TV. Nos conte sobre esse seu trabalho e como o concilia com o trabalhos de guia. 

Roberto: Meu primeiro trabalho remunerado aqui no Japão foi como colunista de uma revista. Esse trabalho evoluiu para o de repórter e eu acabei ganhando uma nova profissão aqui no Japão, a de jornalista. A experiência no jornalismo comunitário me levou a trabalhar como produtor com a correspondente da Record aqui e, depois, com o correspondente da Globo. E isso me deu uma cancha de jornalismo diário que pouca gente formada jornalista tem. Também entrei como apresentador na Radio Japão, da NHK, que é uma transmissão em português da maior empresa de produção jornalística do país. 

Eu sou formado em geografia e em cinema. No Brasil, essa coisa do diploma pesa muito e, mesmo que eu já estivesse escrevendo sobre filmes em sites no país quando vim pro Japão, não sei se receberia esse reconhecimento de jornalista aí sem a tal “DRT”. Nem mesmo com tantos anos de serviços prestados. Já faz 15 anos que eu efetivamente sou jornalista no Japão. Para os brasileiros, em termos de categoria profissional, isso não vale nada. É muito triste por um lado e, por isso, sou grato ao Japão por me acolher nessa profissão que me escolheu.

Mas, enfim, depois que eu saí do escritório da Globo, fui trabalhar como freela e comecei a fazer produção local para inúmeros programas que foram rodados aqui. Produzi a passagem da Regina Casé pelo Japão, matéria no Fantástico e o programa dela Um Pé de Quê? Fiz o programa da Dani Suzuki, o Pé no Chão, fiz o Lugar Incomum que é considerado um programa trendy na TV brasileira… Fiz o No Caminho, que era um programa lindo do Multishow com a Susana Queiroz, o melhor programa sobre o Japão que eu vi na TV brasileira, modéstia à parte. Fiz um especial lindo para a GloboNews no ano passado, com a Cristina Aragão. Fiz os episódios do Japão de um programa apresentado pelo Rodrigo Minotauro chamado Viver Para Lutar, que também ficou lindo. Olha, foram muitos trampos… Trabalhei em produção de filme, novela… Recentemente fiz a Copa do Mundo de Rúgbi como repórter e assessorando uma equipe de TV gringa. 

Eu gosto muito de fazer esses programas, de fazer TV. Às vezes, acabo aparecendo como personagem como rolou no No Caminho, por exemplo, e isso dá visibilidade. Infelizmente, com a crise, tem vindo menos programas do Brasil, se bem que sempre tem alguma coisa rolando. Gosto de fazer porque a gente consegue colocar na pauta desses programas coisas bacanas e tendências novas do que está rolando no Japão. Roteiristas e pessoal de produção do Brasil têm ideias muito cristalizadas sobre o país e chegam aqui pedindo sempre as mesmas pautas. Isso é ruim até para mesmo para o turismo porque a pessoa lá no Brasil quer visitar o que ela vê no programa. Se ela vê as mesmas coisas só vai querer fazer o que todo mundo faz. 

E tem outra coisa: faz algum tempo, tivemos uma viajante que quis fazer tudo o que ela viu num programa de turismo de um rapaz até conhecido. Eu nunca tinha ouvido falar dele e a gente pegou o programa para assistir. Tinha tanta informação errada que eu quase caí da cadeira! A senhora deu tanto trabalho para o nosso guia, sendo que ela não tinha ideia de que boa parte do que ela viu no programa estava errado! E o que está na TV tem credibilidade, né? As pessoas não questionam. Ainda mais se o apresentador é bonitão! Nosso guia, nem é feio, o coitado mas, pô, perdeu desmerecidamente a credibilidade para o galãzão da TV. 

Então, enfim, fazer esses programas também é legal no sentido de que eu trabalho muito sério para que as pessoas saiam daqui com um material que condiga com a atualidade do que é o Japão. Quase nunca tenho ingerência no produto final mas, pelo menos, consigo aqui fazer a diferença na hora da gravação. E, por fim, meu negócio é além do serviço voltado para turistas. É um negócio de conexão entre o Brasil e o mundo com o Japão e os trampos como jornalista ou produtor se encaixam nesse perfil. 

Roberto Maxwell conversa com Bruno de Lucca numa das cenas da temporada Japão do programa Vai pra Onde

LT: Você fez uma participação no Programa “Vai pra onde?” com o Bruno de Lucca. Como foi o convite para participar e conte, para quem não pôde assistir, sobre o que conversaram. 

Roberto: Eu recebi um contato da produtora do programa, inicialmente no sentido de atuar como produtor local. Porém, eles vieram com uma verba muito baixa e não rolou fazer o trabalho de produção. Quem é produtor sabe os perrengues que a gente passa e, mesmo sem fazer parte da equipe, acabei ajudando a produção a encontrar pautas, indiquei outras pessoas para participar em Kyoto, por exemplo. Fiz contato entre a produção e outros lugares menos na rota mas que acabaram não rolando. 

Daí, a produtora do programa perguntou se eu não queria participar como personagem. Eu achei a ideia legal mas estava com trampo na época das gravações, que foi justamente na alta temporada, na floração das cerejeiras.  Consegui um ajuste na agenda e tirei um dia para participar do programa mas queria fazer uma pauta diferente. Então, sugeri que a gente levasse o Bruno prum local super fora da rota, aqui perto de Tóquio mesmo. É um distrito costeiro chamado Misaki, com um paredão de pedra lindo e um porto que é um dos principais receptores de atum no Japão. Além disso, o Bruno pôde conhecer um banho tradicional japonês. Fizemos três pautas ali e ainda os acompanhei num museu do lámen, em Yokohama. 

A pauta mais bacana foi a de gastronomia. Comemos num pequeno restaurante que fica dentro do mercado de peixes de Misaki, um restaurante que é usado pelos trabalhadores do porto, com preço bom e comida de excelente qualidade. Me surpreendi com o conhecimento que o Bruno tem de frutos do mar. Ele contou que a família dele tem negócios com peixes e ele entende bem do assunto. Foi interessante.

LT: Brasil e Japão tem uma relação através dos esporte. Ayrton Senna venceu muitas corridas nos GPs do Japão, o Brasil foi pentacampeão em 2002 em Yokohama, jogadores como Zico são ídolos no país. Como o esporte brasileiro é visto e reconhecido no Japão?

Roberto: É um reconhecimento muito pontual dentro do futebol, eu acho, que é o esporte do povo brasileiro, na visão internacional. Mesmo com as últimas performances decepcionantes, quem gosta de futebol aqui no Japão respeita muito os jogadores brasileiros. Já no futebol feminino, o Brasil é visto como um dos grandes adversários da seleção japonesa e o olhar é mais de igual para igual. O Zico, que você citou, é um ídolo! As pessoas amam o cara porque ele não só contribuiu para fazer o futebol japonês ser tecnicamente melhor como, também, tem aquele jeitinho dele que conquistou os japoneses. Alguns jogadores brasileiros também conseguiram destaque na seleção japonesa, como o Rui Ramos e o Túlio Tanaka, que nem são conhecidos no Brasil mas são ídolos para o Japão. 

Já o Senna é um caso à parte. Eu via muito corrida no domingo quando era criança porque era isso ou ir para a igreja e a corrida era mais legal, claro. Então, o Senna era uma presença muito constante na minha vida. Uma vez, fui numa exposição sobre ele e vi muitos japoneses e japonesas super emocionados vendo as fotos. Eu me lembrei do meu padrasto chorando no dia em que o Senna morreu. Foi a única vez que eu vi o meu padrasto chorar, aquele homem meio bronco, pernambucano arretado, sempre sem demonstrar emoções. Deu para sentir que, do outro lado do mundo, tinha gente que sentia a mesma coisa. Daí, você vê a diferença entre os esportistas brasileiros de hoje e do passado e vê que a gente perdeu alguma coisa como país. Amantes de futebol japoneses até sabem que um Neymar da vida joga bem. Mas não têm a mesma admiração por ele que têm pelo Senna ou pelo Zico.

LT: Em 2020 Tóquio vai sediar as Olimpíadas. Como está a preparação e as expectativas dos japoneses a realização dos jogos? 

Roberto: Aqui estamos na fase dos arremates finais. Falta muito pouca coisa. Tóquio foi escolhida justamente por ser uma cidade que exigiria menos obras do que o Rio, por exemplo. Eles tiveram um entrevero no começo, com a mudança do projeto do Estádio Olímpico. O projeto da Zaha Hadid foi super criticado porque era colossal, não representava muito o Japão, para ser sincero. E os custos… No final, eles refizeram a competição e ganhou um projeto muito mais simples, do Kengo Kuma, que é um dos mais importantes arquitetos japoneses vivos. Ele, aliás, é o autor do projeto da Japan House SP. Eles começaram atrasados mas está tudo em ordem e o estádio está quase pronto.

Quanto aos transportes, não mudou muita coisa. Tóquio já tem uma malha metro ferroviária bem expandida, não tinha muito mais o que fazer. Estão rolando mais obras de embelezamento das estações que vão estar tinindo em 2020. A gente que mora aqui teme que, sim, o transporte não seja suficiente já que os trens já estão lotados. É possível que role uns feriados para os locais mas nada está certo. Já a estrutura hoteleira cresceu muito mas quem procura hotéis hoje já vê que está tudo o olho da cara, bem inflacionado.

No começo, os toquiotas não estavam muito empolgados com Olimpíadas. O Japão tinha acabado de sair de uma grande tragédia natural, o terremoto seguido de tsunami de 2011. Agora, as coisas estão um pouco mais definidas. Se tomarmos como base a Copa de Rúgbi, acho que o pessoal vai abraçar bem o evento. Mas eu sempre recomendo a quem visita alguns cuidados, principalmente de comportamento. Na Copa, a gente já viu alguns problemas rolarem. Por exemplo, o pessoal que se excede na bebida e começa a cantar, dançar e fazer gracinha nos trens. Rola aí uma diferença cultural muito grande. Para o pessoal do Brasil, da Austrália, da Europa, encher a cara e sair berrando na rua é manifestação de alegria, de felicidade… No Japão, já nem tanto. Ainda mais no trem. Então, uma coisa boa seria que quem vier para as Olimpíadas tente respeitar um pouco mais os costumes locais e, claro, que os japoneses também sejam um pouquinho mais tolerantes. Na Copa de Rúgbi deu certo. Acho que tem tudo para dar nas Olimpíadas, também.

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